Não há coisa mais excitante, paralizante e destruidora do que o veneno. Imagine o Solúvel.

 

Janela

Depois de fechar a porta pro mundo, resolvo abrir a janela

 

Eis que salta você, invadindo o lugar empoeirado com retratos quebrados, livros rasgados e pintura gasta. Entusiasmado você decide aproveitar o lugar. Começa regar as plantas, retocar os quadros, pintar a parede de outra cor e eu ajudava a desenhar toda aquela reforma. 

Fez café que deixou no fundo da boca aquele gostinho de “quero mais”. Acho que tinha muito açúcar. Mas pra quem não tinha gosto, antes doce do que o azedo que estava ali. 

Vinha e voltava todo dia. Você insistia pra abrir a porta, porque pular a janela todo dia estava ficando pesado. Eu insistia que aquele mundo podia estar preparado pra você, mas que a porta não seria aberta até que você quisesse cuidar do meu mundo pra sempre, apenas ficar lá, não era opção. Você não podia abrir duas portas ao mesmo tempo, é contra as regras do Universo.

 Acho que pelo fato de ficar em um mundo onde tudo são regras, tinha se cansado. Por isso, veio até o meu, onde pudesse jogar com suas próprias regras.

 A travessura se descontrolou. Um dia um vaso quebrou. O vaso tinha água. A água espirrou. A parede manchou. A mancha ficou.

 Eu disse: “Não há problema. Senta aí, me faz aquele café…”

 Você sentia como se a mancha tivesse estragado a obra de arte que foi aquela pintura, que por mais que rápida, ficou digna de um pintor profissional.

 E esperando que você voltasse praquele nosso café doce, abri a janela como sempre. Só que não te vi passar.

 Quando vejo a porta se abrir. É você, e diz que veio apenas se despedir, pois seu mundo em construção havia passado por uma infiltração, mas que já estava resolvido. Nem mais um café, nem mais um torrão de açúcar. Saiu e deixou a porta aberta e eu não sei o que pode entrar dessa vez.

 A mancha continua na parede, não vou deixar ninguém tocar. A partir de hoje todos serão visitas e a pintura ficará na parede até estragar.

Você pode não entender se às vezes fico pelos cantos, um tanto quieta, recolhida, mergulhada no meu pranto. É que ele me liberta na hora… No momento em que eu boto pra fora, o que já não me serve vai embora e assim eu fico leve. - Pitty.

Você pode não entender se às vezes fico pelos cantos, um tanto quieta, recolhida, mergulhada no meu pranto. É que ele me liberta na hora… No momento em que eu boto pra fora, o que já não me serve vai embora e assim eu fico leve. - Pitty.